Estou a ler os livro "Do Ernesto ao Che", sobre a segunda viagem de Ernesto Guevara pela América Latina, que levou a que começasse a desenvolver o seu "lado" de Che.
Esta passagem, por muito que não pareça nada de mais, disse-me bastante porque tem a ver com uma noção de política que eu procuro e gostaria de ver mais desenvolvida nos jovens (e em todos aqueles que nos rodeiam, claro). Não falo necessariamente do marxismo, mas sim da consciencia social e política, de uma atenção e espírito crítico sobre o que se passa à nossa volta. Não uma "oposição cega", como é referido, mas a capacidade de tentar perceber vários pontos de vista.
"E, embora nesse momento ainda não fosse marxista, Ernesto tinha já ideias socialistas. Não era indiferente à pobreza, ao drama social e às injustiças que geravam. Desde o incómodo que sentia todos os Verões, quando os seus amigos não podiam entrar no Hotel Sierras, até aos dramas sociais mais profundos que descobriu no seu percurso pelas províncias argentinas que fez de mota pela América Latina, com Granado. Ao voltar dessa viagem, começou mesmo a reconhecer alumas coisas boas na acção do governo. Dizia que, depois de ter visto a pobreza de perto, uma pessoa entendia os que votavam no peronismo. Isso demonstra a sensibilidade e a capacidade de reflexão que Ernesto tinha, porque naquele momento todos os nossos parentes e amigos estavam declaradamente contra o peronismo; era uma oposição cega. Em compensação, foi desenvolvendo sempre um pensamento crítico muito pessoal. No tempo da univrsidade, eu, como muitos outros amigos, tínhamos militância activa em diversos partidos e grupos universitários de esquerda. Eu tentava entusiasmar Ernesto, mas nessa época ele preferia não ter uma participação partidária. No entanto, tinha uma visão política e sobretudo ética do mundo, de um ponto de vista existencial, mais ligado à experiência directa com a realidade social. Por isso, as suas viagens definiram tanto a formação ideológica de Ernesto: os seus itenerários não foram turísticos, nem de aventura, mas antes a forja de um pensamento revolucionário que mudaria o mundo."
"Do Ernesto Ao Che", por Carlos Calica Ferrer,
2005
1 comentário:
Eu tenho o Diário da Bolívia e é realmente wow. As condições em que a guerrilha lutava, a manipulação de informação que vinha das rádios apoiantes do regime, o medo dos camponeses, o sentido militar do Che, enfim. É bom ter consciência das coisas. Afinal, sem consciência quem somos nós para criticar o que quer que seja? :)
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