Chegou a casa farto de festas, de vicios e horas tardias. Despiu-se, deixou o casaco de cabedal encima da cadeira, as calças aos pés da cama, despiu a camisa em frente ao espelho que reflectia o seu tronco ainda jovem. Tinha uma marca de baton no pescoço, de uma gaja qualquer. Abriu a água para tomar um duche. Frio, como se sentia em relação a tudo o resto. Tanta coisa que deixara de fazer sentido: os clubes privados, os amigos de ocasião, a loucura, o sexo e as gajas que não eram absolutamente nada, e aquela bebedeira que começava a martelar na cabeça. Mas mais que a bebedeira, aquela vida começava a deixá-lo numa ressaca constante. Não aturava nada, ninguém. “Quero é que todos se fodam!”.
Saiu da casa de banho a pingar, ignorando a toalha pendurada ao lado da banheira. Era verão e mesmo sendo 5 da manhã estava um calor insuportável, segundos depois a pele estava já seca. Ao menos tinha acordado com o frio da água. Vestiu uns boxers e sentou-se no sofá enquanto ligava a televisão. Notícias, apostava o que quisessem que o mundo continuava a mesma merda. Para quê perder tempo a assistir às lutas de interesses dos outros? Já não votava há muito tempo, já não se interessava por política. Para quê, quando conhecia bem a escumalha que eram... Bolsa, who cares? Não tinha qualquer problema de dinheiro e da última vez que verificara, ainda trabalhava numa multinacional que lhe pagava demasiado bem para o trabalho que fazia.
Sacou de um cigarro do maço ja meio amolgado. Tinha uma cigarreira algures, mas nunca se lembrava dela. Acendeu-o. Estava farto deles, sim, mas há um motivo para se chamarem vícios. Perdeu-se no fumo espesso por uns segundos. Não sabia se havia de se ir deitar ou continuar ali sentado a olhar em vão, não havia de fazer grande diferença.
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